Presente misterioso
Um pacote sem remetente transforma o modo como uma mulher habita a própria casa
✍️ Por Érica Alcântara
Escritora e jornalista. Autora do Livro Água Nascente.
A Sra. Smith adora a casa brilhando. Passa horas na internet a encomendar coisas para guardar outras coisas, quando já não tem onde pôr mais nada. Semana passada, porém, não fez um único pedido. Estava triste, coitadinha. O gato Ernest morreu depois de 14 anos de companhia ingrata. Ele, de certo, a odiava, mas fazia-lhe companhia em troca de uma ou duas tigelas de comida. Entretanto, às 18h desta quarta-feira, o homem das entregas toca-lhe a campainha.
— Encomenda, anunciou.
— Casa errada. Não pedi nada. A Sra. Smith não queria ver ninguém. Triste como estava, deixou a casa sem qualquer limpeza desde a quinta-feira passada. Um verdadeiro desastre. A mulher insistia em manter todos os pêlos do bichano intocados. Já no sábado notou que a casa não brilhava.
— É a Sra. Smith?
Abriu a porta.
— Sou.
O homem, corpulento e suado, entrega-lhe uma caixa de cor parda, sem identificação do remetente.
— Assine aqui, por favor.
Colocou a caixa sobre a mesa da cozinha. Mas, antes de abrir, vasculhou nos aplicativos todas as encomendas registradas. Nada. Nenhuma para esta semana. Considerou que fosse engano, mas, como no destinatário o seu nome estava grifado com letras maiúsculas, resolveu abrir.
Dentro havia dois vasos para flores, vazios. Uma entrada para o espetáculo do Cirque du Soleil no Brasil. Um punhado de sementes de girassol. Duas fotografias da Praça Roosevelt e um bilhete que dizia: “Nos vemos no espetáculo”.
Pensou em jogar tudo no lixo. O problema é que era um bilhete VIP Experience, uma oportunidade única que incluía canapés e bebidas à vontade, acesso aos melhores lugares da casa e a possibilidade de conhecer os bastidores e alguns dos artistas mais importantes.
“Mas e se for um golpe? Se for um daqueles tarados que seguem a gente na internet, depois mata, estupra e joga fogo no mato.” A Sra. Smith juntou, numa mesma frase, as três últimas ocorrências de feminicídio citadas na Band FM da capital paulista.
— É melhor não ir.
Domingo, quatro horas antes do espetáculo, sentou-se à frente do guarda-roupa e concluiu que andava sem opções. “Se eu fosse, estaria tramada. Com que roupa iria?” Começou por provar a saia preta. “Pareço uma secretária indo para o trabalho.” Deixou de lado. Em seguida, a calça de veludo branca. “Meu Deus, quanto eu pesava quando comprei isto?” A camisa de paetê dourada, nunca usada, serviu como se fosse feita sob medida. Linda. “Vão achar que trabalho no circo.” Depois de duas horas de angústia e de tirar 80% das roupas do armário, estava pronta.
Chegou ao local uma hora antes de começar o espetáculo, exatamente conforme a instrução do bilhete. Na área VIP Experience não existe fila. A Sra. Smith sentiu-se importante e escondeu o desconforto de andar sozinha, mantendo o corpo muito ereto e o telefone sempre à mão para tirar fotos. Na sua cadeira, de vista privilegiada, encontrou um envelope azul. “Sabia que você viria, Ana Luíza”.
— Como é que sabe o meu nome?
Olhou à volta, procurando pistas. Com raiva de ser considerada previsível, quase foi embora. Mas, como o espetáculo já ia começar, resolveu ficar só mais um pouquinho. Enviou à irmã, em Minas Gerais, a sua localização pelo Google Maps, além de deixar a caixa misteriosa em local estratégico para que, em caso de desaparecimento, a polícia encontrasse digitais nos itens marcados.
A Sra. Smith ama séries policiais, carrega na bolsa um alarme portátil de defesa pessoal e dois sprays de pimenta, caso um deles falhe. Mas sequer lembrou desses apetrechos. Assim que as luzes se apagaram, o espetáculo absorveu toda a sua atenção. Hipnotizante. Entre luzes e acrobacias, a Sra. Smith lembrou-se de que já teve infância, de que sonhava muito e de que, uma vez, pensou em tornar-se bailarina.
Só na hora de ir embora recordou que alguém poderia abordá-la. Mas não. Saiu do espetáculo feliz e curiosa.
— Quem será?
Já em casa, na hora de colocar a roupa para lavar, encontrou um bilhetinho dentro do casaco: “Preencha os vasos com flor”. Ficou com medo, é claro. Sentiu-se invadida, pois alguém se aproximou o suficiente para colocar um bilhete no bolso. “Mas, na hora das fotos com os artistas, toda a gente se esbarrou. Não tem como saber quem era”.
Comprou flores para os vasos, não por obediência, mas porque encontrou uma promoção de margaridas brancas, as suas favoritas. Imperdível. Percebeu que há anos não comprava flores. O gato Ernest detestava, mandava-as todas para o chão ao remexer a terra. As flores mudaram a forma como ela percebe a sala. “Parece mais viva!”
Restavam as sementes de girassol e as fotografias da Praça Roosevelt. Colocou tudo na bolsa e foi até a praça no outro domingo. O local é uma mistura de gente feia e bonita, de várias idades e etnias. Havia skatistas e artistas a apresentar-se na rua. Muitos sons de todos os lados. A Sra. Smith sente desconforto por causa do barulho e decide ficar só dez minutos. Caminhou até o ponto exato em que as fotografias foram tiradas e, de lá, avistou um grupo de monges ou sacerdotes que abordavam as pessoas.
Ao aproximar-se, recebeu do monge mais baixo um pacote pardo, pesado. De início, sem dizer palavra alguma, ele fez um gesto breve de reverência e, em respeito, ela inclinou-se e agradeceu. Dentro havia uma porção de terra.
— Para plantar, disse ele.
A Sra. Smith tencionou perguntar se foi ele quem mandou os bilhetes, se sabia da caixa e do Ernest. Mas a dúvida pareceu-lhe tão estranha que, com medo de ser tomada por louca, apenas sorriu. Olhou à sua volta. Os monges distribuíam sementes iguais àquelas que ela trazia na bolsa.
De volta a casa, deixou o pacote com terra sobre a mesa. Considerando tudo aquilo absurdo e inexplicável, procurou no armário a primeira caixa que recebeu. A caixa não está lá. Os bilhetes desapareceram.
“Entrou alguém aqui.” Trêmula, com uma faca de cortar pão na mão direita e um spray de pimenta na outra, ela verificou as portas, analisou cada janela. Intactas. Sentou-se no sofá, um pouco atordoada, e, assim que encostou a cabeça para trás, notou na estante da sala uma fotografia antiga: ela, criança, na Praça Roosevelt, ao lado da mãe, com girassóis ao fundo.
“Essa fotografia estava aí?”
Na manhã seguinte, plantou as sementes no parapeito da janela, usando a terra que recebeu. Esperava que germinassem em alguns dias. Pela primeira vez desde a morte do Ernest, limpou a casa. Não toda. Apenas o suficiente para que a luz entrasse.
Quando terminou, sentou-se no chão da sala, entre vasos de margaridas, e ficou ali sem fazer nada. 🌻
Este texto faz parte de uma série de reflexões que pratico após os encontros do Clube de Escrita Regenerativa
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Agora eu ouço sua voz ao te ler. :)
Meu Deus, eu estou muito intrigada, não sei nem o que comentar kkk, mas muito obrigada por essa história, fez minha imaginação voar e meu coração feliz ❤️