Cinco voltas
Para onde vão os pedidos de ajuda?
✍️ Por Érica Alcântara
Escritora e jornalista. Autora do Livro Água Nascente
Ele abriu os braços:
— Mamãe, na volta você me pega?
Madalena sorriu, mas não respondeu. João a abraçou e correu para a fila de embarque. Quando se sentou na cabine da roda-gigante, ainda olhou para trás, procurando-a entre as pessoas.
Ao lado dele, um menino segurava a barra de segurança com as duas mãos. Lá embaixo, uma mulher musculada, bronzeada apesar do frio, gritava com o telemóvel erguido:
— Manda beijo pros seguidores, Nicolau!
O menino não respondeu. Não sorriu. Não acenou.
João, como de costume, tentou fazer amizade:
— É minha primeira vez. E você?
Nada. Nenhuma resposta.
A roda começou a subir, lenta, rangendo. Primeira volta. Os pais a acenar, as crianças a fazer imenso barulho. Só na cabine de João as coisas pareciam suspensas, sem grito, sem emoção.
Os meninos, ao longe, poderiam ser irmãos: mesma estatura, cabelos castanhos e curtos, camiseta branca e jeans. Só as pulseiras o diferenciavam.
João usava uma daquelas pulseiras que a tia Marta entregava no Santa Cecília: com nome, idade e o nome dela como referência. Já o outro garoto, carregava um pulseira que, de vez em quando, apitava.
Bip. Bip. Bip.
— Você é daqui?, perguntou João, impaciente depois que o menino escondeu o braço quando ele tentou tocar na sua pulseira.
Silêncio.
João abriu a boca para gritar. Olhou para o menino ao lado. Ele não dizia nada.
Tentou sorrir. Nada. Então, João fechou a boca, ficou quieto também.
Segunda volta. Quando chegaram de novo ao topo, a roda parou, vacilante, rrrr rangendo como joelhos de ferro e ferrugem.
Só então João notou a cidade lá embaixo: os telhados, as ruas, os carros que continuavam passando e as casas que, dali, pareciam muito menores.
— Uaaau… João apontou. — Olha! É a minha casa!
— Foda-se a paisagem.
A frase veio seca, baixa.
João virou.
— Escuta, o menino continuou: — Você precisa me ajudar.
Um vento gelado percorreu a espinha de João. Ele sentiu tudo como se fosse um sonho. A cabine balançou.
— Aquela mulher ali embaixo, disse o menino, sem olhar para lado algum. — Me comprou dos meus pais.
— Como é que é?
— É isso, eles me venderam.
— E por que você não fica com a sua mãe nova?
— Por que ela quer me matar. Terceira volta.
Os olhos de João se arregalaram. Prendeu a respiração e riu, nervoso: — Por que você não foge?
— Eu tentei. Mas ela me encontrou e amarrou isso em mim.
— O que é isso?
— É uma pulseira de choque. Se desobedecer, se tentar fugir, ou levantar a voz… ela dispara. Dói muito. Na primeira vez eu me mijei todo.
João se afasta com medo do bip, bip.
— Ela me tranca no quarto. O colchão fica no chão. Nem lençol tem.
João não respondeu. E riu, curto.
— Uma vez ela esqueceu de comprar comida. Eu comi a ração do cachorro.
— Para…
— É verdade, eu juro. Ela vai me matar. Ouvi a conversa hoje de manhã… Ei, ei…
O menino estalou os dedos na frente do rosto de João. A roda parou. Um tranco leve, reiniciou a contagem do tempo.
Quarta volta.
— Ela vai me matar, percebeu?
O menino evitava movimentos bruscos. Às vezes, olhava em volta. Tentava erguer a barra de segurança.
João, por outro lado, agarrou-se à trava.
— Para… você tá me assustando…, pediu
— Tu é burro?, disse o outro, sem levantar a voz. — Eu tô dizendo que vou morrer e ficas aí, parado, com medo de mim? Me ajude a pensar numa saída.
Lá embaixo, Madalena procurava o filho entre as cabines.
— Se ajeita, disse o menino. — Acena. A gente vai passar na frente delas.
A roda desceu um pouco. Lento. Contínuo. João levantou a mão, mecânico, e acenou como um garoto obediente acena: sem emoção, sem alegria.
Madalena acenou de volta, mas percebeu que havia algo errado.
Aproximou-se do maquinista.
— Vai demorar muito?
O homem, com as mãos manchadas de graxa, respondeu sem olhar:
— Só mais uma, dona. São cinco voltas, ordens da casa.
A roda movia, parava, rangia.
— Eu vou contar tudo pra minha mãe. Ela sempre sabe o que fazer. Teve uma vez que o Dudu tentou me bater e ela segurou a mão do menino no ar, o Dudu é da minha sala, ele é mal e…
— Está certo, vamos fazer assim, quando a gente sair você diz que somos irmãos e nos abraçamos. Ela não vai ter coragem de me dar choques se eu estiver com você.
— Mas e se ela der choque na gente?
— Não vai. Mas se ela fizer isso… corre.
O plano parecia perfeito.
E era. Madalena sempre resolvia tudo.
— Quando aquela mulher se aproximar, a gente grita. Se disser “Nicolau”, nós continuamos andando. Tá bem?
— Mas… esse não é o seu nome?
Ele virou o rosto.
— Não, peste. Meu nome é…
A campainha cortou a frase.
Peee.
A cabine encostou no desembarque.
— Podem descer, meninos! anunciou o maquinista.
O menino abraçou João. Rápido. E, no gesto, enfiou algo no bolso do casaco dele.
Madalena respirou aliviada ao ver o filho. Preparou para tirar uma foto, mas foi empurrada.
Era a mulher musculada. Ao se aproximar dos garotos, gritou:
— Não toca no meu filho, seu retardado!
E, num gesto curto, mas violento, separou os dois. João, por instinto, esticou os braços para segurar o amigo, mas foi atingido. Uma descarga fez as crianças caírem.
Madalena viu. E explodiu. Empurrou quem estava na frente, desviou das pessoas, ajoelhou-se no chão e puxou João para si, gritando para todos a sua volta.
— Melhor manter o seu filho trancado, disse a musculada, enquanto erguia do chão o menino desacordado. Jogou aquele corpo magro e franzino sobre o ombro e desapareceu, engolida pela confusão que se formou.
— Melhor manter o seu filho trancado — disse a musculada.
Puxou “Nicolau” do chão e o jogou sobre o ombro.
Quando João despertou, ela já tinha desaparecido no meio da confusão.
Uma das crianças ali perto gritava:
— Briga! Briga! Briga!
Alguém segurou Madalena. — Calma, dona! Calma!
João despertou dizendo:
— Ela vai matar ele! Ela vai matar ele!
A roda de curiosos se abriu. Chamaram a equipe de segurança, testemunhas apontaram que Madalena estava armada. Ela era a ameaça.
Separa, separa. Afasta. Os guardas puseram tudo em causa.
— Abre a bolsa.
Abriu. E nada. Na bolsa só uma carteira, com documentos, uma barrinha de chocolate, os ingressos da roda gigante, uma escova de cabelo, baton e uma bombinha de oxigênio.
Os seguranças olharam os documentos, um passou para o outro, para análises individuais e morosas. Olhavam a foto da identidade, depois o rosto de Madalena. Foto, pessoa. Pessoa, foto. E, após considerações entre eles, conduziram mãe e filho para fora do parque.
No carro, João tremia. Madalena abriu o porta-luvas, pegou água, balas de goma e entregou tudo ao mesmo tempo.
— Respira, filho. Foi só um susto.
— O menino… mãe… salva o menino…
Certa de que o filho delirava, Madalena ligou o motor, percorreu as mesmas ruas diversas vezes. Até que o telemóvel tocou. Há meses ela esperava por esta ligação. Atendeu.
Silêncio.
— Já estamos a caminho…
Desligou. Virou-se para João. — É hoje, meu filho.
Cega pela força que uma meta dá a quem está perto da linha de chegada, Madalena já não ouvia o que João dizia.
Virou a esquina sem sinalizar.
— Filho… acabou. É hoje.
João continuava:
— Salva o menino, mãe…
Hospital Santa Cecília. Portas automáticas. Luz branca. Gente correndo. — Tia Marta!, disse João.
— Querido, preciso que seja corajoso, está bem?
Madalena engoliu o choro. Ainda assim, as lágrimas escorriam.
— A gente precisa achar o menino…, disse João.
Tiram-lhe a roupa. Agulhas. Vozes sobrepostas.
— Pressão caindo.
— Não dá tempo.
— O que ele tem?
— Está em choque. Vamos! Vamos! Vamos!
A maca disparou pelo corredor.
João repetia, entre o sono e vertigem:
— Nicolau…Nicolau…
A porta do centro cirúrgico abriu. A Dra. Marta entrou logo atrás.
Madalena ficou do lado de fora, as mãos juntas em prece.
— Cuida bem do meu filho, doutora.
No bolso do casaco abandonado na cadeira, há uma pequena caixa de fósforos. Dentro, um bilhete, escrito atrás de um recorte de revista:
“Me ajude.”
No outro lado, um pedaço de anúncio rasgado. Algumas palavras ainda visíveis:
“…sempre é tempo de ser feliz”
No turno da noite, a Sra. Clotilde passa por ali, varre o chão e recolhe o casaco.
Na hora do intervalo, deixa-o no setor de achados e perdidos. 🌻
Este texto nasce de um desafio pessoal: escrever com o mínimo de diálogos internos. A primeira frase surgi por instinto. O que vem depois constrói-se em camadas: um derivado do derivado. A argamassa que sustenta o desejo de “na volta você me pega?”.
E para você, como é que este texto te pega?
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Li o texto todo com o olho arregalado, rsrsrs. Meu Deus que escrita mais incrível, você me capturou a atenção, eu fiquei tensa, fiquei com vontade de ajudar o menino, e vontade de pegar o telefone e denunciar essa mulher maluca que faz isso com ele. Tô tensa porque ele sumiu, quero uma continuação em? rsrs
Bom, eu já inventei aí um transplante de algum órgão para o João que era do Nicolau. Deixar porta aberta pra gente que escreve é um perigo, Érica!