Casa dividida
É preciso estar atento para reconhecer a hora exata em que o amor sai pela porta.
✍️ Por Érica Alcântara
Escritora e jornalista. Autora do Livro Água Nascente.
Quando eu era criança, eu não tinha medo da morte. A morte era uma coisa da qual ninguém falava, não era um assunto importante na vida dos adultos. Era mais um tema dos velhos que, a cada semana, contabilizavam quem ainda estava vivo ou a quantos velórios tinham ido.
Na minha infância, o medo que mais me apavorava era o da loucura.
A vovó perdeu um irmão no manicômio. Claro que, da primeira vez que ouvi essa história, pensava que perder tinha um significado parecido com se perder no mercado e ter de ir à sala da diretoria para anunciarem seu nome no autofalante. E eu sempre pensava: “Será que no manicômio não tem autofalante?”
Mais tarde ouvi a história sob novas perspectivas.
O irmão da avó perdeu o juízo depois do trabalho. Reza a lenda que ele parecia muito normal, vestiu-se como de costume, levou a marmita que sempre levava. Mas, logo depois do expediente, depois de receber todo o ordenado, caminhou calmamente em direção ao centro da cidade e, já no meio da Praça Tiradentes, aos pés da estátua do Inconfidente, o tio-avô atirou todo o dinheiro que tinha no vento. Fez das notas e moedas uma chuva de confete. E foi aí que a família decidiu que era a hora de internar. Depois? Ninguém nunca mais o viu.
Dizem que morreu por lá, no mesmo manicômio em que o mandaram internar. O irmão da vovó morreu sozinho.
A justificativa de sua internação me parecia inverossímil. O Silvio Santos fazia exatamente a mesma coisa, todos os finais de semana, num programa de televisão especial para toda a família. Ele gritava no meio da plateia: “Quem quer dinheirooo?” e jogava as notas para cima. Às vezes fazia aviões de papel com as notas mais altas, aquelas notas que a gente sabe que existem, mas nunca viu. O Silvio Santos não morreu num manicômio. Muito pelo contrário, virou lenda da televisão brasileira. Portanto, nunca percebi completamente como é que levaram ele para uma clínica de loucos e o deixaram por lá, como um cão abandonado.
Depois tinha aquele primo da avó, o João Pé de Rodo. Vi uma foto dele numa daquelas casas de estudantes perto da prefeitura. “Ele vinha aqui sempre e toda a gente gostava muito dele. Ganhou o apelido porque tinha os pés muito grandes.” O João Pé de Rodo era o louco de estimação. A fotografia em preto e branco, homenagem póstuma dos alunos formados, era a peça central da sala de entrada. Uma obra de arte: João, sozinho, sentado à soleira de uma porta de madeira trincada, sorria sem dentes para preencher o vazio de uma boca cercada por rugas cavadas.
Lá pelos meus dez anos, a minha tia tentou expulsar minha família da casa da vovó. Fez uma manobra no direito para decretar que tinha a posse do lugar onde a minha mãe cresceu. A avó, sem compreender o que se passava, escolheu um lado e passou a nos agredir constantemente: moralmente, emocionalmente, fisicamente. E eu? Acreditava que aquilo era loucura.
Por um longo tempo, vivemos na mesma casa, mas separados. Dois quartos para nós, dois para elas; um banheiro para nós e outro para elas; uma sala para nós e outra para elas. Mas e a cozinha? Fomos expulsos de lá. Montamos uma mesa de jantar debaixo da janela do banheiro principal e instalamos o fogão ao lado do tanque de lavar roupa. As panelas ficavam ali, embaixo do tanque mesmo. Era comum esbarrar nelas quando íamos lavar roupa.
Às vezes, no meio do almoço, elas usavam o banheiro e o odor fétido da latrina se misturava ao cheiro do alho e da cebola. Tudo era improvisado. Às vezes, a avó se aproximava sem raiva e, escondida da minha tia, deixava bifes para o almoço. Mas, na maior parte do tempo, havia tensão. Todo mundo cochichava ou falava alto e ria, só para provocar. Havia o dizer sem dizer, o brigar direto e indireto, feito de adjetivos pérfidos, degradantes.
Eu vivia com medo e com raiva. Das brigas, dos gritos, das ofensas. Medo de ser agredida, medo de que alguém nos visse sendo agredidos. Medo de que meus amigos me vissem em plena cena de humilhação. Portanto, eu nunca levava amigos para casa. Acordava com medo da avó, dormia com medo da tia. Fingindo coragem, mas era mentira. Fingindo não importar, mas importava. Engolia o choro, porque chorar era para os fracos. E eu não falava, porque falar não adiantava.
Dormia e acordava numa zona de conflito.
Eu tinha medo daquela loucura. Acreditava que a maldade era a ausência de razão. Que ninguém em sã consciência acordaria dizendo: “Hoje serei o vilão.” Porque, na minha cabeça, vilões não eram apenas ruins. Eram feios, maldispostos. E ninguém escolhe a feiura. Escolhe? Vilões eram pessoas sem amor. Pois o amor, por sua própria natureza, tem aversão à maldade.
Hoje, ainda tenho mais medo da loucura do que da morte. Depois de morta, a pessoa deixa de existir. A dor acaba.
Na loucura, não: o caos se alimenta do ressentimento até restarem apenas a raiva e a dor. Vivemos tempos de extremos, de espetáculo. E é preciso vigiar a si mesmo para reconhecer a hora exata em que o amor sai pela porta. 🌻
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