A água
Ainda assim, é nela que mergulho as mãos.
✍️ Por Érica Alcântara
Escritora e jornalista. Autora do Livro Água Nascente
Uma piscina.
Acordo com um sonho inteiro na cabeça e só me lembro da piscina. A água aprisionada num retângulo fundo, verde clara por dentro. Está em movimento embora não haja ninguém ali. A superfície tem ondas e refletem o sol.
Não havia corpo.
Mas havia movimento.
São 6h30. Escrevo à mesa da cozinha enquanto o café se encontra com o leite numa chávena com temas de Natal. Olho para a pia. Nunca escrevi sobre ela. Nada. Todos os dias ela está ali. Pedra. Trincada. Constância.
A água corre da torneira como corre nas minhas veias. Não penso nisso quando lavo os pratos. Odeio lavar talheres. A pia recebe tudo. O resto da noite. O que foi usado. O que sobrou e caiu no ralo.
A piscina do sonho era funda.
A pia é rasa.
Ainda assim, é nela que mergulho as mãos.
A pia parece um tanque de lavar roupas… Mas em Portugal não há tanques nas casas! E, de repente, sinto saudades de ter um lugar para esfregar os sapatos. Onde a sujeira da estrada se perde.
A água sempre vence. Demora. Mas vence.
A pia é o meu desafio do agora. Talvez porque esteja sempre diante dos olhos. E o que é comum desaparece.
Quem talhou essa pedra? Que mãos abriram no veio da terra o espaço onde agora deposito a gordura, os restos, o cotidiano? A pia é minha própria Pietà. Carrega cicatrizes de mais de vinte anos.
Hoje quase tudo tem vinte anos.
Menos eu.
Na borda vivem detergente e esponja. Prefiro as esponjas espessas, que prometem proteger as unhas, do sabão? É preciso pulso. Fecho os dedos até as falanges explodirem fofura, depois solto devagar.
As bolhas nascem desse gesto bruto. Frágeis. Diáfanas. Dissolvem a gordura flácida e pegajosa até que tudo se renda à água corrente.
As bolhas vivem segundos. Ainda assim existem.
Com o tempo seremos isso: ar envolto por uma película fina, refletindo o mundo antes de desaparecer.
A água participa de tudo. Consome. Transforma. Retorna.
Na pia habitam bactérias aceitáveis. Vida microscópica que ignoro enquanto lavo os pratos. Existem fora do meu olhar e apesar dele.
Como a água na piscina. Aprisionada num metro definido. Em movimento que ninguém vê.
Fecho a torneira. Mas não é o fim da água.
Ela sempre continua. 🌻
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Deixo um agradecimento afetuoso às professoras Mariana Botelho e Norma Souza Lopes, ao Paul Berssey e a toda a equipa do Pontão de Cultura. Vocês são verdadeiramente inspiradores.
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